Por que nos sentimos tão sós?

Por que nos sentimos tão sós?

A solidão é tão antiga quanto o ser humano, contudo, ela vem se tornando cada vez mais evidente nos últimos anos. Acreditamos que o contraste da solidão e a percepção de estarmos isolados emocionalmente se amplificaram por conta da forma com a qual a sociedade optou por se conectar nos tempos atuais.

Afinal, nunca estivemos tão “conectados”. Por que então nos sentimos tão sós?

Os dados impressionam. Os impactos da solidão sobre a saúde superam aos da obesidade sendo comparada a mesma taxa de mortalidade que fumar 15 cigarros por dia. A solidão também é percursora da maior parte dos distúrbios psicológicos, como a depressão e também tem sua contribuição direta nos atos de suicídio, que já é a segunda maior causa de morte entre os jovens de 15 a 29 anos mundialmente, que também é a faixa etária que mais sofre de solidão.

Apesar dos recentes estudos não correlacionarem o aumento da solidão ao impacto das redes sociais e como a sociedade vem caminhando culturalmente com os avanços da tecnologia e das conexões virtuais, nós acreditamos que existe sim correspondência entre estes aspectos, que nada mais são do que um reflexo das atitudes dramáticas que a nossa sociedade vem tomando ao longo do tempo em nome da independência e em resposta aos traumas consecutivos que temos experimentado em nossas relações ao longo da história.

Mas o que está acontecendo?

As pessoas que sofrem com a solidão relatam que:
1) Sentem que não têm com quem conversar;
2) Se sentem desconectadas do mundo ao seu redor;
3) Se sentem isoladas das pessoas;
4) Sentem tristeza; e
5) Não se sentem compreendidas.

Todas estes aspectos partem de algo comum: o que se sente. Afinal, o ser humano é um ser interdependente e nunca estivemos desconectados uns dos outros, contudo, existe o sentimento de estarmos isolados, como se existisse uma barreira invisível emocional intransponível entre as pessoas.

Quando nos aprofundamos no sentimento da solidão, compreendemos que as pessoas carecem de conexões reais, daquelas em que é possível compartilhar “coisas que importam”, que impreterivelmente partem do sentir.

O problema é que sentir vem significando muita dor na história da humanidade. Apesar de ser nossa condição primária de aprendizado aqui, partindo do princípio que nós sentimos o mundo desde que chegamos e essa ser a parte mais representativa do indivíduo, as relações humanas que naturalmente envolvem sentir, desde muito precocemente vêm sendo disruptivas, o que nos situa exatamente onde estamos.

Como isso ocorre?

As emoções importam e desde muito cedo aprendemos que havia algo de errado com o que sentíamos, pois, a aceitação, o reconhecimento e a validação nos foram condicionados de acordo com os padrões e contextos culturais, familiares e religiosos de cada indivíduo.

Todos nós carregamos este senso de inadequação e insegurança em nosso inconsciente. Todos nós passamos por algum tipo de negligência e abuso emocional ao crescer pois ainda estamos engatinhando nas emoções e no papel que elas possuem em nossa vida.

Esta disrupção é traumática, que faz com o que o indivíduo passe a se proteger deste aspecto central, porém vulnerável, de si mesmo. Este isolamento de si mesmo, interior, é refletido ao seu redor, no exterior. Todos passamos pelo mesmo processo.

A vulnerabilidade envolvendo o sentir é o que vem separando as pessoas por conta das possíveis dores experimentadas neste lugar, mas ela também é a via real de retorno à conexão entre elas.

A problemática.

Como passamos toda uma vida nos afastando destes aspectos vulneráveis e protegendo-os, nós também nos afastamos deste aspecto no outro, criando nítidas barreiras emocionais entre as pessoas que só percebemos quando passamos por momentos difíceis emocionais: um luto, uma perda ou uma separação.

Quando isso ocorre, nos tornamos vulneráveis e somos tocados pela solidão. Percebemos a indisponibilidade do outro e a superficialidade que permeia as relações humanas. O problema não é a dor, pois essa faz parte da experiência humana, o problema vem sendo a sensação de estar isolado na dor enquanto todos compartilhamos do mesmo aprendizado.

É justamente esta sensação que vem arrastando almas cada vez mais jovens a solidão e a depressão, em tempos em que estamos passando cada vez menos tempo fisicamente uns com os outros e também em tempos em que uma “felicidade” plástica e superficial nos é vendida continuamente nos feeds de notícias de nossas redes e mídias sociais.

As pessoas estão carentes de conexões reais em meio a uma multidão de pessoas.

A nossa proposta.

Em meio a este cenário dramático no que tange o real sentir nas relações humanas, a proposta do Kor-e é promover conexões reais em tempos modernos. Fazemos isso a partir da vulnerabilidade sim, porém, a começar pelos estranhos, por pessoas que não se conhecem.

Quando não existe vínculo emocional, numa relação em que uma das partes está disposta a servir e ajudar, nós conseguimos criar um ambiente seguro e adequado para a vulnerabilidade de ambas as partes fluírem e se conectarem.

Usamos a tecnologia para unir estas duas pessoas numa plataforma online, numa relação cujo o gatilho é o sentir, que é aspecto central e mais representativo do indivíduo.

Acreditamos na benevolência humana quando essa está conectada com este aspecto essencial. Também acreditamos na capacidade de um ser humano ajudar o próximo quando a vulnerabilidade é manifestada por um pedido de ajuda, acolhimento e aceitação – qualidades que todos nós fundamentalmente buscamos e precisamos.

Saiba aqui como pretendemos fazer isso e junte-se a nós nesta batalha contra a solidão e seu isolamento emocional.

Acesse nossos valores e jornada, aqui.

Artigo escrito pela Guardiã do Kor-e 💚 –>  Juliana Infurna.


Dissecando a Pessoa de Carl Rogers

Dissecando a Pessoa de Carl Rogers

Neste Artigo vamos discorrer sobre a psicologia de Carl Rogers, considerado o grande impulsionador da Psicologia Humanista (também conhecida como a 3ª força da Psicologia). Carl Rogers também foi figura ativa na luta pela autonomia da profissão psicoterapêutica, antes exercida exclusivamente por médicos e médicos psiquiatras. Também foi indicado ao prêmio Nobel pela grandeza de sua Obra que no meu ponto de vista, é um colírio diante da percepção da natureza humana nos tempos modernos.

Apesar de meus estudos “oficiais” sobre o psiquismo humano terem se iniciado com a psicanálise freudiana, Carl Rogers chega como uma beatitude diante de tantas teorias e abordagens pessimistas sobre o ser humano, cujo esse então, estaria fadado e estigmatizado por um passado inconsciente (essencialmente negativo) que o define e que o dirige.

A abordagem rogeriana traz luz sobre algo que no fundo eu sei, você sabe e todos sabemos (quando centrados): sobre ser humano. É importante relembrar que humanidade tem como principais significados: bondade, benevolência, compaixão e piedade. Quando nos conectamos uns aos outros por esses princípios, nos tornamos humanos de verdade.

Contudo, há de se entender o pessimismo diante do ser humano de da humanidade. Caminhamos já alguns séculos por tempos incrivelmente difíceis, ambientes inóspitos, aparentemente incapazes de despertar ou de deixar florescer nossa real humanidade.

Vamos aqui compreender um pouco mais sobre o conhecimento que este homem compartilhou durante sua jornada, no intuito de trazer sobre aquilo que já sabemos, mas que talvez tenhamos esquecido. Afinal, o trabalho é sempre relembrar… pois já somos tudo aquilo que precisamos ser 😊

Rogers para mim, é sobre: leis naturais, natureza humana, alquimia (transformação), cristianismo (de tabela: um pouco de anarquismo), acolhimento, humildade, compaixão, cardíaco, empatia, aceitação e sobretudo: autenticidade e liberdade.

Amamos 😊

 

Pequena Biografia:

Aos 12 anos, Carl Rogers vai morar numa fazenda com sua família e entrega-se então a observação da natureza, o que o motivou a estudar agronomia quando mais velho. Porém, num determinado momento, ele muda sua vocação e a direciona à teologia, emancipando-se da casa dos pais para ingressar num dos colégios mais liberais de sua época: o Union Theological Seminary. Durante seus anos lá, Rogers então, através de suas vivências, sente a necessidade de explorar as questões humanas com mais profundidade e a partir dali parte então para seus estudos dentro da Psicologia e Psicopedagogia.

É seguro dizer que ao observar a natureza e ao estudar o macrocosmo e sua relação com o homem, através da teologia, Rogers tenha despertado a paixão pela busca desta mesma natureza dentro do ser humano, afinal, o cerne de sua Obra gira em torno de “Tornar-se pessoa” (ser quem realmente se é), nome de um dos seus principais livros.

 

Síntese do pensamento rogeriano:

Para Rogers, o ser humano parte de um cerne essencialmente positivo, capaz de compreender-se e de solucionar seus próprios problemas. Ser humano é ser processo, sendo assim, um contínuo trabalho de vir a ser (devir), daquilo que já se é. Pode parecer um tanto subjetivo num primeiro momento, mas veremos que é simples.

“A natureza básica do ser humano, quando atua livremente, é construtiva e fidedigna. Trata-se da inevitável conclusão de mais de trinta anos de experiência em psicoterapia. Quando somos capazes de libertar o ser de suas defesas, de modo que ele se abra à ampla variedade das exigências ambientais e sociais, pode-se confiar em que suas reações serão positivas, voltadas para o futuro, construtivas. Não precisamos perguntar quem o socializará, pois uma de suas aspirações mais profundas é de associar-se, de comunicar-se com os outros. Quando é, plenamente, ele próprio, não pode deixar de ser realisticamente socializado”. Carl Rogers 1972.

Sendo assim, o ser humano possui um núcleo positivo (afetivo, empático e considerativo) que já lhe é intrínseco independente da educação e de seu processo de aprendizagem. Ao longo de sua jornada, o homem caminha em direção a este fim, o que Rogers chamará de tendência atualizante. Esta atualização rumo aquilo que já se é entrará em choque com o ambiente externo que o Ser encontrará, que será balizado pela qualidade das relações interpessoais.

Se o outro o valoriza e valida a experiência do Ser, diminui-se a distância entre o ser real (quem se é) e o existencial, sendo assim, é estabelecida uma congruência (coerência), que Rogers aponta como a unidade total da personalidade (autenticidade).
Se o outro não valoriza ou condiciona a experiência do Ser, esse então passa a valorizar-se de forma também condicional. Ocorre uma ruptura entre o ser real e o existencial, bem como aumenta-se a distância entre a consciência que o Ser possui de si mesmo em relação aquilo que ele experencia na vida (incoerência).

O ser humano então é essencialmente bom, cuja energia positiva pulsa dentro de si, em busca de conexão, aceitação e compreensão: de si mesmo e consequentemente dos outros. Contudo, esta natureza humana se choca com o externo, cuja qualidade das relações determinará o grau de neurose do sujeito: balizada no nível de consciência que ele possuirá de si mesmo e no quão ele é coerente ou não, entre aquilo que se é e aquilo que se experencia na vida.

Quanto maior o nível de aceitação, amor e liberdade (incondicionais), maior o nível de autorrealização do Ser. Simples assim.

No meu ponto de vista a ruptura é inevitável, pois se soubéssemos amar e aceitar incondicionalmente à nós mesmos e aos outros, nós não estaríamos aqui nesta plano de dualidade, aprendendo justamente pelos opostos para enfim chegar nessa fonte. Porém, Rogers traz luz e esperança sobre um homem natural que é espelho da natureza, perfeita em si mesma e capaz de se auto resolver, adaptar, evoluir… sempre a favor da vida (tendência positiva).

Isso parece óbvio, mas não é. Existe muito pessimismo em torno do ser humano nos dias de hoje, inclusive dentro das comunidades espirituais e centros de cura. Ressente-se muito a vida. Se hoje a raça humana é uma raça que parece odiar-se e promove destruição é devido ao seu nível gigantesco de ruptura com a fonte positiva (vida, Criação) e em sua proposta terapêutica, Carl Rogers propõe alguns insights importantes para nos tornarmos “Pessoas” (ser quem somos, logo, humanos 😊).

 

Tornar-se Pessoa (ser quem se é).

Tornar-se Pessoa envolve reconhecer-se como processoaceitar-se e aceitar a sua própria experiência, que para Rogers, é a experiência a pedra de toque de toda validade. Isso porque, de acordo com Rogers, a experiência de cada um é única.

“Nenhuma ideia de qualquer outra pessoa, nem nenhuma das minhas ideias, têm autoridade que reveste a minha experiência. Nem a Bíblia, nem os profetas, nem Freud, nem a investigação – nem as revelações de Deus ou dos homens – podem ganhar precedência relativamente à minha própria experiência direta.” Rogers 1977.

Se a experiência é única, é digna de total confiança. Ao aceitar a minha experiência, aceito a mim mesmo. É para a experiência que devemos regressar em busca da verdade e nos aliarmos a ela. Por experiência, ele define: “Aprendi que a minha apreciação total “organísmica” de uma situação é mais digna de confiança do que meu intelecto”, “Valorizar a minha experiência, o modo como sinto, o que sinto e por isso, devo seguir o que “sinto ser bom.” Rogers 1977.

Por essas declarações vemos nitidamente um homem guiado pelo coração: o sentir como bússola.
“Quando sinto que uma atividade é boa e que vale a pena prossegui-la, devo prossegui-la.”
“Sempre que confiava num sentimento interno e não intelectual acabava por encontrar a justeza da minha ação.”
“Nunca lamentei seguir as direções que eu sentia serem boas.”
Rogers 1977.

Sendo assim, aceitar a própria experiência torna-se tarefa difícil pois sabemos que requer muita coragem para guiarmos nossas vias pelo coração, pelo sentir. O reino humano é um reino de água e mesmo assim a humanidade nega sua própria natureza elementar ao negar e não dar fluidez aos seus sentimentos e emoções.

De acordo com Rogers então, podemos dizer que para tornar-se Pessoa, torna-se necessário abrir este canal para ouvir o que se sente e não somente ouvir, como aceitar o que se sente e nortear nossa experiência por aquilo que nos faz sentir bem.

A mudança (transformação) só ocorre quando nos aceitamos profundamente: quem somos e como nos sentimos. Penso que além de coragem, tal processo requer humildade. Humildade para seguir uma vida como se sente, conscientemente e genuinamente, sem deturpar a experiência com base em ideias e julgamentos preconcebidos por outrem. Apesar das consequências. 😊


Aceitar-me me permite aceitar o outro

De acordo com Rogers, quando aceitamos nossa própria experiência, integralmente, caminhamos automaticamente para a aceitação do outro. Isso porque as relações interpessoais se tornariam mais: reais (humanas). Numa outra linguagem, quando o Ser se conecta com o seu cardíaco e passa a alinhar sua experiência de vida à verdade que se sente, em seu coração, ele conecta automaticamente outros corações, possibilitando assim relações pelo que são (autênticas, coerentes, humanas), propiciando a transformação no outro também. Apesar de únicos, em algum lugar, somos um.

Creio que a empatia que Rogers descreve é resultante do processo de autoconhecimento (tornar-se Pessoa). Durante o processo de busca de quem se é e da re-união dos fragmentos resultantes das rupturas que o separaram de si mesmo, o indivíduo é tocado pela compaixão – inevitavelmente, pois antes de mais nada, é preciso acolher todas as partes que foram perdidas (esquecidas) pelo caminho. Honra-se o processo e consequentemente honra-se o processo do outro.

A minha Alquimia (transformação) propicia a Alquimia no outro, pois quando me aceito e me permito ser quem sou, sou coerente e consequentemente passo confiança e propicio sua transformação. Por isso o trabalho é sempre de dentro para fora e se inicia comigo. Ao me tornar Pessoa, em minha real humanidade, facilito que os outros se tornem Pessoas também.

Sempre digo que o trabalho é curar-se, incessantemente e buscar alinhar a vida a verdade que se passa em nossos corações (ou aceitar a experiência, como diria Rogers), pois assim, nos tornamos não só pessoas melhores, mas também propiciamos melhor a cura. Desta forma, quem busca ajuda se sente acolhido, aceito e confiante de seu processo de tornar-se também… Pessoa 😊


Ser pessoa e aceitar-se, é ser congruente

Congruência é o termo que Carl Rogers encontra para indicar a correspondência mais adequada entre a consciência e a experiência. Sendo assim, ser congruente (coerente), é ser a sua própria experiência: a conexão entre o ser real (o que se é) e o ser existencial (o que se experencia).

Ser congruente é ser autêntico, é aceitar-se e aceitar a própria experiência, é negar as máscaras e negar os personagens. A recusa da interpretação de um papel. Carl Rogers então traz luz sobre o dilema que todos nós enfrentamos em um determinado momento de nossas vidas: Ser ou não ser autêntico… eis a questão.
A autenticidade manifestada na realidade, a conexão entre o que se é e o que se vive.

Podemos deduzir também que a falta de congruência entre os indivíduos também decorre desta falta de noção do que se é (o ser real), contudo, como vimos no Artigo anterior, a experiência é guia mestra. Sendo assim, ser congruente é aproximar o ser real (experiência vivida e consequentemente sentida) do ser ideal (imagem do eu). É alinhar a experiência àquilo que se sente, como organismo.

O processo de autoconhecimento ou terapêutico ajuda o Ser a se aproximar daquilo que ele gostaria de ser. O que definitivamente não é um processo fácil tendo em vista que a maioria de nós associa “ser quem se é” a algo negativo e ao desamor, pois em nossa insaciável sede por amor, conexão e aceitação – negados – terminamos por esconder nossa verdadeira face para nos adaptar àquilo que nos condicionaram.

A velha história do castigo e recompensa. Crianças sedentas de amor que se condicionam para obter migalhas deste então sentimento que parece confortar, amparar e sustentar o coração dos homens (que por mais que tentemos negar, ainda temos um coração humano pulsando dentro de nossos peitos). Seguiremos neste mecanismo, conscientes dele ou não, na vida adulta. Individual e coletivamente, em todas as nossas relações.

Independente dos infinitos subterfúgios, por mais criativos que sejam, que inventemos, para justificar nossas atitudes para conosco e para com os outros: será a experiência vivida e sentida (guia mestra) o termômetro que definirá o quanto ainda estamos envolvidos neste emaranhado inconsciente de ser fachada para obter migalhas de amor.

Você pode contar mil histórias para si mesmo, convencer-se delas, acreditar como se fossem reais tal como a sua própria existência, porém, se no final do dia, você ainda precisa mentir para si mesmo ou para os outros, esconder-se nas sombras e na escuridão, negando aspectos de si mesmo, alimentando inverdades, com medo de ser aceito pelos outros: você ainda está preso, inconscientemente, na dinâmica mencionada acima. O quanto antes, você se apossar da humildade para aceitar tal condição, mais rápida será a sua redenção.

Afinal, tudo caminha para a luz. Assim como o Sol, a Lua e a Verdade não ficam escondidos por muito tempo (Buda), a sua essência (sua Pessoa) aflorará inevitavelmente, a tendência atualizante, como diz Carol Rogers. De acordo com ele, há um final (ou melhor… processo 😊) feliz nesta busca (neste caminhar para a luz), que veremos adiante.

 

A congruência e sua Alquimia

Rogers enxerga um valor inestimável na congruência (coerência), não só pela libertação pessoal inerente a mesma, mas sobretudo pelo potencial de transformação que ela traz nas relações interpessoais e é justamente aqui, que no ponto de vista, reside o Ouro da obra de Carl Rogers.

“Nunca achei que fosse útil ou eficaz nas minhas relações com as outras pessoas tentar manter uma atitude de fachada, agir de uma certa maneira à superfície quando estou a passar pela experiência de algo completamente diferente” Rogers 1977.

Em sua jornada, Rogers observa que a transformação do outro era facilitada quando as relações interpessoais eram autênticas e sem máscaras e isso inclui a relação psicoterapêutica. Isso me recorda a frase de Jung: “Conheça todas as teorias e todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”.

Rogers traz luz sobre o potencial transformador do “humanizar-se”, inclusive do terapeuta, que muitas vezes também veste sua máscara e torna-se fachada para conseguir ajudar o outro. O terapeuta, como Pessoa, em sua luta pessoal ao buscar a congruência de sua experiência, é ao mesmo tempo, impelido a vestir uma máscara para ajudar o outro pois subentende-se que o outro não está pronto para enxergá-lo como a Pessoa que é, impossibilitando a relação de confiança, consequentemente a ajuda.

Rogers então, ao contrário de outras linhas da psicologia, encoraja todos a serem Pessoa, inclusive o terapeuta, pois ao sê-lo, aumentaria inclusive o seu potencial de ajuda ao outro. Ele propõe uma relação terapêutica palpada na igualdade (humildade) e não paternalista, que envolveria superioridade (fazendo uma alusão a psicanálise freudiana).

Numa linguagem alquímica, Rogers então descobre que tudo se resume a busca pelo Sal e que “O maior dos caminhos da iniciação, e o caminho mais simples, consiste em tornar-se o menor dentre os homens. É no preço desta humildade que se volta a cristalizar a Luz superior, que vai permitir irradiar o esplendor sobre todos os seus irmãos na humanidade” Nicolas Flamel.

Ser Pessoa, é ser livre, de acordo com Rogers. Ao me aceitar e aceitar minha experiência (ao me permitir senti-la e deliberar a partir daí), aceito o outro incondicionalmente e sou congruente. Sendo congruente, facilito que o outro também o seja. Consequentemente, as relações se tornam reais. De escravos, nos tornamos livres. É possível sentir claramente a influência cristã na obra de Rogers, uma “fé anárquica” no ser humano, em sua natureza… a aceitação da zona de caos que se harmonizaria se todos se tornassem “Pessoa” em sua real humanidade.

A temida liberdade de ser quem somos. O maior medo dos seres humanos.
“O caminho para a liberdade e para a autonomia, para a independência, é o caminho para a congruência.” “Ser congruente é estar permanentemente comprometido na descoberta de que ser plenamente ele mesmo, em toda a sua fluidez, não é sinônimo de ser mau ou descontrolado. Pelo contrário. Quer dizer que caminha continuamente para ser, na consciência e na expressão, aquilo que é conforme com o conjunto das reações organísmicas, ou melhor: ser quem realmente se é”.

Aqui vemos mais uma alusão ao reino humano (água). Ser Pessoa é ser fluído, fluxo, constante processo, é ser quem se é diante das experiências da vida. Incongruência então é estática, prisão e imutabilidade. Ser autêntico é passar da rigidez a fluidez.

A fé de Rogers advém de uma natureza humana, que em suas reações “organísmicas”: é positiva e social, em essência, e que tende à evolução “crescimento”. Uma vida mais plena, de acordo com Rogers, é uma vida mais liberta, que passa de uma visão defensiva para uma visão mais aberta da experiência. Sendo assim, de dar ouvido a este organismo humano que somos e que sabe o que é melhor para nós, através do sentir, pois já somos completos em nós mesmos.

Esta capacidade de autorealizar-se e de auto atualizar-se é natural, traduz-se em vida. Assim como todos os organismos na natureza se adaptam e evoluem, assim é o homem. A dança da vida tende ao positivo, assim como o homem.

Não há final pleno ou feliz, porém Rogers, em sua psicologia humanista, propõe um processo, uma caminhada mais plena e passível de autorrealização, que passa inerente pela busca de sermos quem somos. Apesar de sua natureza cristã, Rogers valida sua teoria na natureza humana, em sua biologia, como um organismo vivo que faz parte e é correspondente de um organismo vivo maior.

Sem dúvida é uma proposta corajosa (coração).

Ao terminar estas linhas sou tomada por uma imensa vontade de tirar dúvidas com este homem brilhante. Me questiono se ao final de sua vida, ao olhar para trás, ele concluiu se foi suficientemente congruente a ponto de sentir-se em paz ao partir. Ou sobre qual era sua visão sobre algumas disfunções genéticas, como a psicopatia primária, que provocariam esta visão essencialmente positiva sobre o ser humano “natural”. Sobre como ele lidava com seu “amor pela verdade” ao tentar equilibrá-lo com a “verdade do amor”, visto que muitas vezes ser verdadeiro implica em processos destrutivos, anti-vida, daquelas almas que ainda não estão maduras para ouvi-las… etc.

Ficam as indagações. Contudo, Carol Rogers é inspiração e conversa com minha alma e com a alma deste Projeto. Trata-se de um homem claramente comprometido com o seu processo de tornar-se Pessoa e que, consequentemente, ajudou muitos outros seres a se transformarem, ao fazê-lo.

Espero que tenham gostado.
Até a próxima! 😊

Artigo escrito pela Guardiã do Kor-e 💚 –>  Juliana Infurna.